Em um mês que reforça a importância do cuidado com a saúde da mulher, psicóloga propõe ampliar a reflexão: além de olhar para o corpo, é preciso reconhecer as mudanças emocionais que acontecem ao longo da vida. Muitas mulheres continuam sustentando papéis e comportamentos que foram importantes no passado, mas que hoje já não representam quem elas são.
Nas últimas décadas, a vida das mulheres mudou profundamente.
Hoje, elas estudam mais, ocupam mais espaço no mercado de trabalho, lideram empresas, empreendem, vivem mais tempo e conquistaram autonomia em diferentes áreas da vida. Ao mesmo tempo, continuam sendo, em grande parte das famílias, as principais responsáveis pelos cuidados da casa, pela organização da rotina familiar e pelo suporte emocional de filhos, parceiros e familiares.
Essa transformação trouxe novas possibilidades, mas também novos desafios.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres brasileiras dedicam, em média, quase o dobro do tempo dos homens aos afazeres domésticos e aos cuidados com pessoas, mesmo quando exercem atividade remunerada. Além das tarefas visíveis, especialistas chamam atenção para a chamada “carga mental”: o planejamento da rotina, a antecipação de necessidades, a organização da casa, o cuidado com os filhos, os pais e as relações familiares.
No campo da saúde mental, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que mulheres apresentam maior prevalência de transtornos como ansiedade e depressão em comparação aos homens. Especialistas explicam que esse cenário não pode ser compreendido apenas por fatores biológicos. Aspectos sociais, culturais, familiares e emocionais também influenciam diretamente a forma como elas vivenciam o estresse, constroem a própria identidade e respondem às diferentes fases da vida.
Esses números ajudam a compreender um cenário que se tornou cada vez mais frequente nos consultórios: mulheres que continuam cumprindo todas as responsabilidades do dia a dia, mas que já não conseguem reconhecer a si mesmas.
“É muito comum ouvir frases como ‘eu não sei em que momento deixei de ser quem eu era’ ou ‘eu olho para a minha vida e percebo que ela faz sentido, mas eu já não me reconheço nela’. Essas mulheres não necessariamente passaram por um grande trauma ou por uma mudança brusca. Muitas apenas foram se adaptando às exigências da vida até perderem contato com partes importantes da própria identidade”, explica a psicóloga e terapeuta integrativa Laura Zambotto.
Segundo ela, esse é um processo silencioso e muito doloroso.
“A saúde emocional nem sempre se manifesta por meio de uma crise. Em muitos casos, ela aparece na sensação constante de viver no automático, na perda do entusiasmo, na dificuldade de reconhecer os próprios desejos ou na impressão de que se está apenas cumprindo papéis.”
Quando a vida muda, mas a identidade permanece presa ao passado
Na psicologia, amadurecer não significa apenas acumular experiências, também significa permitir que a identidade acompanhe as mudanças da própria história.
Laura explica que todas as pessoas desenvolvem estratégias emocionais para enfrentar diferentes momentos da vida.
Algumas mulheres aprenderam muito cedo a ser fortes porque precisaram lidar com perdas importantes.
Outras assumiram responsabilidades familiares ainda na infância ou adolescência.
Há quem tenha descoberto que precisava agradar para evitar conflitos, controlar tudo para sentir segurança ou esconder as próprias emoções para proteger quem estava ao redor.
Esses comportamentos não surgem por acaso.
Eles são respostas construídas diante das circunstâncias vividas.
“Sob uma perspectiva psicológica e também sistêmica, entendemos que muitos padrões emocionais nasceram como formas de adaptação. Eles ajudaram essa mulher a atravessar fases difíceis, preservar vínculos ou enfrentar situações desafiadoras. O problema é que aquilo que um dia foi proteção pode deixar de fazer sentido quando a vida muda.”
Segundo Laura, uma das percepções mais frequentes durante os atendimentos é que muitas mulheres continuam reagindo aos desafios atuais utilizando estratégias emocionais construídas muitos anos antes e que não necessariamente são as mais adequadas para seu momento de vida.
“A mulher que hoje ocupa um cargo de liderança pode continuar tentando agradar a todos porque aprendeu isso ainda na infância. Outra pode viver em estado permanente de alerta porque precisou lidar muito cedo com situações de insegurança. São comportamentos que um dia tiveram uma função importante de sobrevivência, mas que nem sempre acompanham a pessoa que ela se tornou.”
É justamente nesse momento que surge uma reflexão recorrente durante o processo terapêutico.
A mulher que você precisou ser para chegar até aqui ainda é a mulher que você deseja continuar sendo?
Segundo Laura, essa pergunta costuma provocar silêncio. Não porque a resposta seja difícil, mas porque muitas mulheres nunca tiveram oportunidade de fazê-la e responder esse questionamento pode ser muito mais desafiador do que parece.
Quando sobreviver deixa de ser suficiente
A velocidade da vida contemporânea faz com que poucas pessoas parem para observar como estão mudando.
A rotina exige produtividade.
As redes sociais reforçam padrões de sucesso, beleza e desempenho.
A carreira avança.
Os filhos crescem.
Os pais envelhecem.
Novas responsabilidades surgem.
No meio desse movimento, olhar para dentro parece um luxo.
“Existe uma ideia muito presente de que amadurecer é apenas suportar mais. Mas amadurecer também é revisar escolhas, reconhecer mudanças e permitir que novas versões de nós mesmas possam existir. A questão aqui não é excluir a história de vida da mulher, mas ajudá-la a ressignificar e integrar em si todas essas outras versões que a ajudaram a sobreviver até esse momento, para que o amadurecimento emocional possa acontecer”
Segundo Laura, é exatamente nesse ponto que muitas mulheres começam a experimentar um sentimento difícil de explicar.
Não estão necessariamente infelizes, mas também já não se sentem plenamente conectadas com a própria vida.
“É como se continuassem desempenhando um papel que fez sentido durante muitos anos, mas que já não representa quem elas são hoje.”
Essa desconexão pode se manifestar de diferentes maneiras.
Algumas perdem o interesse por projetos que antes as motivavam.
Outras passam a sentir culpa sempre que priorizam as próprias necessidades.
Há quem tenha dificuldade para identificar o que realmente deseja, porque passou tantos anos atendendo às expectativas dos outros que deixou de ouvir a própria voz.
A mulher deixa de ter prazer em tudo de sua vida para viver de forma automática em seu dia-a-dia.
“Nem sempre estamos diante de um transtorno psicológico. Muitas vezes, estamos diante de uma mulher que simplesmente cresceu, mudou e nunca teve espaço para integrar essas transformações.”
“Eu percebi que continuava vivendo para corresponder às expectativas”
Foi exatamente isso que aconteceu com Mariana (nome fictício), de 46 anos.
Executiva e mãe de dois filhos, ela sempre foi reconhecida pela capacidade de resolver problemas.
“Durante muito tempo achei que esse era o meu jeito de ser. Eu resolvia tudo, organizava tudo e dificilmente falava sobre o que estava sentindo.”
A percepção começou a mudar quando, mesmo depois de alcançar objetivos profissionais importantes, passou a experimentar uma sensação constante de vazio.
“Minha vida fazia sentido no papel. Mas eu não conseguia mais identificar o que fazia sentido para mim.”
Foi durante o acompanhamento terapêutico que Mariana percebeu que ainda vivia segundo uma lógica construída muitos anos antes.
“Eu continuava tentando provar que era forte o tempo todo. Só depois entendi que aquela postura me ajudou em uma fase da vida, mas não precisava definir quem eu seria para sempre.”
Segundo Laura, histórias como essa são mais comuns do que parecem.
“Muitas mulheres não precisam reconstruir completamente a própria vida. Precisam apenas perceber que crescer também significa atualizar a própria identidade.”
Um convite para olhar além do espelho
Durante o mês de outubro, campanhas de conscientização reforçam a importância de as mulheres olharem para a própria saúde.
Para Laura, essa mensagem pode inspirar uma reflexão ainda mais ampla.
“O cuidado também passa por desenvolver a capacidade de perceber a nós mesmas. Não apenas o corpo, mas nossas emoções, nossos desejos, nossos limites e a forma como estamos vivendo.”
Ela explica que esse olhar não precisa surgir apenas em momentos de sofrimento intenso.
“O acompanhamento terapêutico também é um espaço preventivo. É onde a mulher consegue compreender a própria história, identificar padrões que já não fazem sentido, fortalecer recursos emocionais e construir uma relação mais saudável consigo mesma.”
Para a psicóloga, talvez uma das perguntas mais importantes que uma mulher possa fazer a si mesma seja:
A mulher que eu precisei ser para chegar até aqui ainda representa a mulher que eu desejo continuar sendo?
Ela ressalta que não se trata de rejeitar o passado.
“Aquela versão foi importante. Ela enfrentou desafios, protegeu vínculos e encontrou formas de seguir em frente. O problema é quando continuamos vivendo apenas a partir dela, sem permitir que novas partes de nós também tenham espaço.”
E conclui:
“Assim como aprendemos a reservar um tempo para cuidar da saúde física, também precisamos criar momentos para olhar com honestidade para nossa vida emocional. Crescer não é abandonar quem fomos. É permitir que a mulher que somos hoje também tenha voz. O acompanhamento terapêutico oferece esse espaço de escuta, reflexão e reconstrução, para que cada mulher possa viver de forma mais coerente com a própria história e com quem deseja ser daqui para frente.”
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