Os animais que vivem na Amazônia ocupam praticamente todos os cantos da floresta: nos rios e lagos estão o boto-cor-de-rosa, o peixe-boi e o pirarucu; nas áreas alagadas, a sucuri e o jacaré-açu; na copa das árvores, macacos, preguiças, araras e a harpia; no chão da mata, a onça-pintada, a anta e a cutia. Conhecer esses ambientes ajuda a saber o que procurar numa viagem.
Por que a Amazônia tem tantos animais diferentes
A Amazônia é a maior floresta tropical do mundo e se estende por vários países da América do Sul. Calor e umidade o ano inteiro, chuva abundante e uma rede enorme de rios criam muitos ambientes lado a lado. Um mesmo trecho pode ter mata de terra firme, que nunca alaga, e florestas que passam meses debaixo d’água.
O sobe e desce dos rios é o que mais define a vida por lá. Na cheia, a água entra na floresta e os peixes nadam entre troncos de árvores; na vazante, surgem praias de areia onde as tartarugas desovam. Muitos animais têm o calendário ajustado a esse ciclo. E muita coisa ainda é pouco conhecida: pesquisadores continuam descrevendo espécies novas de peixes, anfíbios, insetos e até primatas na região. Para ter uma ideia visual desses ambientes, vale ver estas fotos da floresta amazônica e dos seus animais.
Nos rios e lagos
Boto-cor-de-rosa e tucuxi

O boto-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) é o maior golfinho de rio do mundo. A cor rosada fica mais forte nos adultos, principalmente nos machos. Como as vértebras do pescoço não são fundidas, ele vira a cabeça com facilidade e consegue caçar peixes entre galhos e raízes da floresta alagada. Aparece em lendas do Norte, como a do boto que vira homem em noites de festa. Hoje é classificado como ameaçado de extinção, por causa da pesca, das barragens e da poluição dos rios. Nos mesmos rios vive o tucuxi, golfinho menor e acinzentado, que costuma saltar fora da água.
Peixe-boi-da-amazônia
O peixe-boi-da-amazônia (Trichechus inunguis) é um mamífero herbívoro que vive só em água doce e come capins e outras plantas aquáticas. É tímido, difícil de ver na natureza e foi muito caçado no passado pela carne e pelo couro. Centros de pesquisa, como o do Inpa, em Manaus, cuidam de filhotes resgatados e, quando possível, os devolvem aos rios.
Pirarucu

O pirarucu (Arapaima gigas) está entre os maiores peixes de escama de água doce do mundo e pode passar de 2 metros. Ele respira ar: sobe à superfície de tempos em tempos, e é nesse momento que os pescadores o localizam. Depois de anos de pesca excessiva, o manejo comunitário, com contagem dos peixes e cotas de pesca, ajudou a recuperar a espécie em reservas como Mamirauá, no Amazonas. Nas mesmas águas vivem o poraquê, peixe-elétrico que produz descargas de centenas de volts, e as piranhas, que têm fama maior do que o perigo real.
Nas áreas alagadas e nas margens
Várzea é a floresta alagada por rios de água barrenta, como o Solimões; igapó é a alagada por rios de água escura, como o Negro. Nesses lugares, e nas margens de lagos, vivem alguns dos animais mais famosos da região.
Sucuri

A sucuri-verde (Eunectes murinus), também chamada de anaconda, é a cobra mais pesada do mundo. Não tem veneno: mata por constrição, enrolando o corpo em volta da presa. Passa boa parte do tempo na água, com só os olhos e as narinas para fora, à espera de peixes, aves, capivaras e jacarés. Não costuma atacar pessoas e prefere fugir quando é incomodada.
Jacaré-açu
O jacaré-açu (Melanosuchus niger) é o maior jacaré do Brasil e pode passar de 4 metros. Tem a pele escura, quase preta, e caça principalmente à noite. Nos passeios noturnos de focagem, os olhos dos jacarés brilham com a luz da lanterna, e é assim que os guias os encontram.
Ariranha
A ariranha (Pteronura brasiliensis) é a maior lontra do mundo em comprimento. Vive em grupos familiares, pesca em equipe e faz muito barulho para se comunicar. Está ameaçada de extinção, e a presença dela costuma indicar rios bem conservados.
Cigana e tartaruga-da-amazônia
A cigana (Opisthocomus hoazin) é uma ave de voo desajeitado que vive em galhos sobre a água. Os filhotes têm garras nas asas, que usam para voltar ao ninho depois de pular na água para fugir de predadores. A tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), o maior quelônio de água doce da América do Sul, usa as praias que aparecem na seca para pôr os ovos.
Na copa das árvores
Boa parte da vida da floresta acontece lá em cima, a dezenas de metros do chão, onde há mais luz, flores e frutos. Por isso, é comum ouvir os animais antes de vê-los.
Macacos
A Amazônia tem uma grande variedade de primatas. Os guaribas, também chamados de bugios, soltam roncos que se ouvem de longe, principalmente de manhã cedo. O macaco-aranha, de braços longos e cauda que funciona como um quinto membro, espalha sementes de muitas árvores. O uacari-branco, de rosto vermelho e cabeça sem pelos, vive nas várzeas da região de Mamirauá. E o sauim-de-coleira, pequeno e ameaçado de extinção, só existe em Manaus e em municípios vizinhos.
Preguiças
A preguiça-de-três-dedos passa quase a vida inteira pendurada nas árvores, comendo folhas, que têm pouca energia e demoram a ser digeridas; daí o ritmo lento. Ela desce ao chão mais ou menos uma vez por semana para fazer as necessidades, e é nesse momento que fica mais vulnerável. A pelagem pode ganhar um tom esverdeado por causa de algas que crescem nela.
Araras, tucanos e harpia

Araras como a arara-vermelha e a arara-canindé voam em casais ou em bandos barulhentos. Os tucanos, com o bico grande e leve, comem principalmente frutos. Dentro da mata fechada, um dos mais comuns é o tucano-grande-de-papo-branco; o tucano-toco, mais associado ao Cerrado e ao Pantanal, aparece em áreas abertas e nas margens de rios amazônicos. Quem gosta dessas aves pode comparar com os animais do Pantanal, onde elas são mais fáceis de avistar. No topo da cadeia está a harpia, ou gavião-real, uma das águias mais fortes do mundo, que caça preguiças e macacos entre os galhos.
No chão da floresta
O chão da mata é escuro, úmido e coberto de folhas. Os mamíferos grandes andam por ali, mas são discretos e muitos têm hábitos noturnos, então vê-los exige paciência e sorte.
Onça-pintada

A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas. Nada bem, caça em terra e na água e come de queixadas a jacarés e peixes. Na Amazônia, é mais difícil de ver do que no Pantanal, por causa da mata fechada. Na várzea de Mamirauá, pesquisadores observaram que as onças passam os meses de cheia vivendo nas árvores.
Anta, queixada e cutia
A anta é o maior mamífero terrestre do Brasil e espalha sementes de muitas árvores pelas fezes, por isso é chamada de jardineira da floresta. Os queixadas andam em bandos grandes, que se percebem de longe pelo cheiro forte e pelo bater de dentes. A cutia tem um papel curioso: enterra sementes para comer depois e esquece parte delas, o que ajuda a espalhar a castanheira, a árvore da castanha-do-pará.
Pequenos e muito importantes
Formigas, cupins, besouros, sapos e aranhas decompõem folhas, reciclam nutrientes e alimentam muitos outros bichos. Entre os mais conhecidos estão a formiga tucandeira, de picada muito dolorosa, usada em um ritual de passagem do povo Sateré-Mawé; os sapinhos coloridos e venenosos da família dos dendrobatídeos; e a aranha-golias (Theraphosa blondi), considerada a maior aranha do mundo em massa. Outras criaturas curiosas da fauna amazônica têm aparência tão estranha quanto a dela.
Onde observar animais na Amazônia
Ver bichos na floresta depende de guia experiente, paciência e do ambiente certo. Alguns destinos brasileiros são conhecidos pela observação de fauna:
- Manaus e Rio Negro: passeios de barco pelo Negro e pelo arquipélago de Anavilhanas, perto de Novo Airão, com chance de ver botos, aves e macacos. O encontro das águas do Negro com o Solimões fica perto da cidade.
- Reserva Mamirauá, perto de Tefé (AM): várzea com turismo de base comunitária, conhecida pelo uacari-branco, pelas preguiças, pelos botos e pelas onças que vivem nas árvores durante a cheia.
- Tapajós e Alter do Chão (PA): praias de rio na seca e trilhas na Floresta Nacional do Tapajós, com árvores enormes e boa observação de aves.
- Norte de Mato Grosso: a região de Alta Floresta é procurada por observadores de aves.
Cheia ou seca: qual a melhor época
Não existe uma época melhor para tudo. Na cheia, que na Amazônia central costuma chegar ao pico entre maio e julho, os barcos entram na floresta alagada e passam perto da copa das árvores, onde estão macacos, preguiças e aves. Na seca, com o nível mais baixo por volta de outubro e novembro, os animais se concentram perto da água que sobra, as praias aparecem e fica mais fácil ver jacarés e aves aquáticas. As datas mudam de rio para rio e de ano para ano, então confirme com a pousada ou o operador antes de marcar.
Como observar com respeito
- Contrate guias locais e operadores cadastrados; eles sabem onde os animais costumam estar e como chegar perto sem assustá-los.
- Leve binóculo, roupa de manga comprida em cores neutras, repelente e capa de chuva.
- Fale baixo nas trilhas e nos barcos: o barulho afasta a maioria dos bichos.
- Não alimente nem toque em animais silvestres.
- Recuse passeios que oferecem foto com preguiça, jacaré ou cobra no colo. Em geral, esses animais são tirados da natureza e mantidos de forma irregular.
Perguntas frequentes
Quais animais da Amazônia são perigosos para as pessoas?
Acidentes são raros para quem anda com guia. Os cuidados principais são com cobras peçonhentas, como a surucucu e as jararacas, e com as arraias de água doce, que ficam enterradas na areia e dão uma ferroada muito dolorosa. Ao entrar em rio de fundo arenoso, arraste os pés em vez de pisar: a arraia sente o movimento e se afasta. Nas trilhas, use botas e olhe onde coloca as mãos.
Quais animais da Amazônia estão ameaçados de extinção?
Entre os citados aqui, aparecem em listas de espécies ameaçadas o boto-cor-de-rosa, a ariranha, o peixe-boi-da-amazônia e o sauim-de-coleira, entre muitos outros. As principais ameaças são o desmatamento, a caça e a pesca ilegais, o garimpo, que contamina os rios com mercúrio, e as barragens.
Para aproveitar a viagem, escolha o destino pelo ambiente que quer conhecer (rio, várzea ou terra firme) e pela época da água. Com guia local, silêncio e binóculo, as chances de ver vários desses animais aumentam bastante.

