As fotos de bichos que mais chamam atenção são as que mostram um comportamento difícil de ver ao vivo: um polvo mudando de cor, um leopardo todo preto, uma fêmea de beija-flor alimentando os filhotes no ninho. Abaixo estão sete dessas cenas, o que cada uma revela sobre o animal e como os fotógrafos conseguem registrar momentos assim sem atrapalhar a vida deles.
Borboletas-monarca: o que parece carinho

A cena de duas monarcas com as cabeças quase encostadas lembra um beijo, mas borboletas não trocam carinho. Quando aparecem assim, o mais provável é que estejam se alimentando na mesma flor ou no meio do cortejo, em que o macho persegue a fêmea antes do acasalamento. As antenas servem para sentir cheiros, e as patas têm receptores de sabor: a borboleta “prova” a planta ao pousar nela.
A cor laranja com nervuras pretas funciona como aviso. As lagartas da monarca comem plantas do gênero Asclepias, que têm substâncias tóxicas, e guardam essas substâncias no corpo até a fase adulta. Muitas aves aprendem a evitar a borboleta depois de uma experiência ruim. Na América do Norte, a espécie ficou famosa pela migração de milhares de quilômetros entre o Canadá, os Estados Unidos e as florestas do centro do México. No Brasil vivem borboletas do mesmo gênero da monarca (Danaus), vistas com frequência perto da oficial-de-sala (Asclepias curassavica), planta de que as lagartas se alimentam.
Leopardo-negro: raro, mas não é outra espécie

O leopardo-negro é um leopardo comum (Panthera pardus) com melanismo, uma variação genética que produz excesso de pigmento escuro na pele e nos pelos. As rosetas continuam lá: com luz lateral ou em fotos infravermelhas, dá para ver o desenho das manchas por baixo do preto. O mesmo vale para a onça-preta, que é uma onça-pintada melânica. As duas costumam ser chamadas de “pantera-negra”, nome popular que não corresponde a uma espécie.
O melanismo aparece com mais frequência em leopardos das florestas úmidas do Sudeste Asiático. Na África ele é raríssimo, tanto que as imagens de um leopardo-negro no Quênia divulgadas em 2019, feitas com câmeras automáticas, circularam pelo mundo. Esse é um dos métodos mais usados para registrar felinos esquivos: câmeras com sensor de movimento deixadas por semanas nas trilhas que os animais usam.
Cão e pato: amizades entre espécies

Fotos de cachorros convivendo com patos, gatos com coelhos ou porcos com cabras quase sempre vêm de sítios e casas em que os animais cresceram juntos. No caso das aves, há uma explicação conhecida: o imprinting, ou estampagem. Nas primeiras horas depois de sair do ovo, patinhos e gansinhos se apegam à primeira figura que se move perto deles e passam a segui-la. O fenômeno foi estudado pelo zoólogo austríaco Konrad Lorenz, que ficou conhecido por ser seguido por filhotes de ganso.
Por mais bonita que seja a cena, a convivência precisa de supervisão. Alguns cães têm instinto de caça forte, e uma brincadeira pode machucar uma ave. Se a ideia é registrar os bichos de casa, veja também como fazer fotos do seu pet com o celular, com dicas de altura, luz e foco.
Polvo: camuflagem em frações de segundo

O polvo muda de cor graças aos cromatóforos, pequenas bolsas de pigmento na pele ligadas a músculos e controladas pelo sistema nervoso. Quando os músculos puxam, a bolsa se abre e a cor aparece; quando relaxam, ela some. Por isso a mudança é quase instantânea. Além da cor, o polvo altera a textura da pele, levantando pequenas saliências que imitam coral, alga ou pedra.
Um detalhe ainda intriga os pesquisadores: os olhos da maioria dos polvos têm um único tipo de fotorreceptor, o que indica que eles não distinguem cores como nós, e mesmo assim a camuflagem acompanha o fundo. Nas fotos de mergulho, um dos registros mais difíceis é o da transição, quando parte do corpo já mudou e parte ainda não.
Filhote de elefante órfão: o resgate por trás da imagem

Filhotes de elefante dependem do leite da mãe nos primeiros anos de vida e não sobrevivem sozinhos. Eles ficam órfãos por causa da caça ilegal pelo marfim, de conflitos com moradores de áreas rurais, de secas ou de quedas em poços e lamaçais. No Quênia, o Sheldrick Wildlife Trust mantém há décadas um programa de resgate: os filhotes recebem mamadeira com fórmula especial, ficam o tempo todo acompanhados por cuidadores e, com os anos, voltam aos poucos para a vida selvagem.
A presença humana constante tem motivo. Elefantes são animais sociais, e o filhote precisa de companhia para se desenvolver; nos orfanatos, os tratadores fazem esse papel até que o animal se junte a outros elefantes. As fotos desses resgates ajudam a divulgar o trabalho e a conseguir apoio para ele.
Beija-flor: a mãe cuida de tudo sozinha

Na foto de um beija-flor dando comida aos filhotes, quem aparece é a fêmea. Na grande maioria das espécies, o macho não participa: ela constrói o ninho, incuba os ovos, em geral dois, e alimenta os filhotes. O ninho, que em muitas espécies tem o tamanho de meia casca de noz, é feito de fibras vegetais, penugem de plantas e liquens, presos com teia de aranha, que estica conforme os filhotes crescem.
Para alimentar, a fêmea coloca o bico na garganta do filhote e regurgita néctar e pequenos insetos, a fonte de proteína de que ele precisa para crescer. É uma cena rápida. Fotógrafos de natureza evitam chegar perto de ninhos, porque a movimentação pode fazer a mãe abandonar os ovos ou atrair predadores até eles.
Águia-careca: o símbolo que quase desapareceu

A águia-careca não é careca. O nome vem do inglês bald eagle, em que bald aparece no sentido antigo de “cabeça branca”, por causa da plumagem dos adultos. Os jovens são marrons e só ganham a cabeça e a cauda brancas por volta dos quatro ou cinco anos. A ave vive na América do Norte, é o símbolo nacional dos Estados Unidos e se alimenta principalmente de peixes, que agarra na superfície da água.
No século 20, a espécie chegou perto de sumir de boa parte dos Estados Unidos. Um dos motivos foi o inseticida DDT, que deixava a casca dos ovos fina demais, a ponto de quebrar durante a incubação. Com a proibição do produto no país, em 1972, e a proteção dos ninhos, a população se recuperou, e a águia saiu da lista de espécies ameaçadas em 2007.
Como essas cenas são fotografadas
As melhores fotos de bichos quase nunca saem por sorte. Os fotógrafos de natureza estudam a espécie antes, sabem em que horário ela se alimenta e em que época se reproduz, e passam horas esperando no mesmo lugar. Alguns recursos se repetem:
- Lentes teleobjetivas: permitem fechar o enquadramento de longe, sem invadir o espaço do animal.
- Esconderijos: abrigos camuflados em que o fotógrafo espera perto de um bebedouro ou de uma área de alimentação.
- Armadilhas fotográficas: câmeras com sensor de movimento, usadas para animais noturnos ou muito tímidos.
- Luz do começo e do fim do dia: é mais suave e coincide com o horário em que muitos animais estão ativos.
Também há regras de ética que os bons fotógrafos seguem: não alimentar animais para atraí-los, evitar flash em bichos noturnos, não mexer em ninhos ou tocas e respeitar as normas de parques e reservas.
Onde ver e fotografar animais no Brasil
O Pantanal é um dos melhores lugares do mundo para observar animais em liberdade. Na seca, mais ou menos entre julho e outubro, a fauna se concentra perto da água, e fica mais fácil ver onças, jacarés, capivaras, tuiuiús e araras. Veja as imagens da vida selvagem do Pantanal e a seleção de fotos de animais brasileiros. Para quem gosta dos grandes gatos, há também uma galeria de fotos de felinos selvagens.
Para começar a fazer suas próprias fotos de bichos, não precisa viajar: praças, parques e jardins têm aves, borboletas e insetos que rendem boas imagens. Paciência, distância e luz boa fazem mais diferença que equipamento caro.

