Machado de Assis (1839–1908) foi um escritor carioca, autor de romances, contos, crônicas, poemas, peças e textos de crítica, e é considerado por muitos o maior nome da literatura brasileira. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras e escreveu clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas, marco do realismo no Brasil, e Dom Casmurro, dono da dúvida mais famosa da nossa ficção: Capitu traiu ou não?
Biografia resumida: do Morro do Livramento à Academia
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Era filho de Francisco José de Assis, pintor de paredes cujos pais tinham sido escravizados e depois libertos, e de Maria Leopoldina Machado da Câmara, nascida nos Açores. Perdeu a mãe ainda menino, cresceu numa família pobre e teve pouca educação formal: formou-se, sobretudo, como leitor autodidata.
Em 1855, ainda adolescente, publicou o poema “Ela” na revista Marmota Fluminense, do editor Francisco de Paula Brito. Trabalhou como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional e como revisor antes de chegar às redações do Correio Mercantil e do Diário do Rio de Janeiro. A crônica de jornal virou companhia para a vida toda: ele escreveu centenas delas.
Em 1869, casou-se com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, irmã do poeta Faustino Xavier de Novais. Os dois viveram juntos 35 anos e não tiveram filhos. A morte dela, em 1904, inspirou o soneto “A Carolina”. O sustento vinha do serviço público: em 1873, Machado foi nomeado para o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e seguiu como funcionário por mais de três décadas.
De 1884 até o fim da vida, morou numa casa no bairro do Cosme Velho, origem do apelido “Bruxo do Cosme Velho”. Morreu em 29 de setembro de 1908, aos 69 anos. Machado era um homem negro (chamado de “mulato” ou “pardo” na linguagem da época) que chegou ao topo das letras num país escravocrata. Por muito tempo, fotos e ilustrações clarearam a pele dele, um apagamento que pesquisadores e campanhas recentes vêm corrigindo.
As duas fases da obra
A obra de Machado costuma ser dividida em duas fases. A separação é didática (os primeiros romances já mostram a vaidade e o cálculo por trás dos sentimentos), mas ajuda a entender a virada de 1881.
Primeira fase: os romances da década de 1870
Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878) seguem convenções do romantismo: narrador em terceira pessoa e enredos centrados em casamento, herança e ascensão social. Ainda assim, são mais contidos que os romances da época, com personagens que pesam os próprios interesses antes da paixão. Os livros de contos Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia-Noite (1873) são do mesmo período.
Segunda fase: o realismo a partir de Brás Cubas
Com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado deixa o sentimentalismo de lado e adota narradores intrometidos, que conversam com o leitor e comentam a própria história, além de ironia constante e capítulos curtos. É a fase de Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908), e também dos contos reunidos em Papéis Avulsos (1882), Histórias sem Data (1884), Várias Histórias (1896), Páginas Recolhidas (1899) e Relíquias de Casa Velha (1906).
Principais obras de Machado de Assis
Machado publicou nove romances em livro. A tabela reúne os mais lidos e um livro de contos que costuma ser a porta de entrada para muita gente.
| Obra | Ano | Gênero | Do que trata |
|---|---|---|---|
| Helena | 1876 | Romance | Uma jovem reconhecida como filha no testamento de um conselheiro passa a viver com a família dele, e um segredo sobre sua origem muda tudo. |
| Memórias Póstumas de Brás Cubas | 1881 | Romance | Um “defunto autor” narra a própria vida, cheia de vaidade, privilégios e projetos que não deram em nada. |
| Papéis Avulsos | 1882 | Contos | Inclui “O Alienista”, “O Espelho” e “Teoria do Medalhão”. |
| Quincas Borba | 1891 | Romance | Rubião, professor do interior, herda a fortuna de um filósofo e a perde para os novos amigos no Rio de Janeiro. |
| Dom Casmurro | 1899 | Romance | Bentinho conta o casamento com Capitu e acusa a mulher de tê-lo traído com o melhor amigo. |
| Esaú e Jacó | 1904 | Romance | Gêmeos rivais, um monarquista e outro republicano, disputam a mesma moça na passagem do Império para a República. |
| Memorial de Aires | 1908 | Romance | Diário do conselheiro Aires, diplomata aposentado; último romance, publicado no ano da morte do autor. |
O que torna o estilo de Machado tão marcante
- O narrador conversa com você. Brás Cubas interrompe a história para falar com o leitor, justificar um capítulo ou avisar que vai pular um trecho. Há até um capítulo, “O velho diálogo de Adão e Eva”, feito quase só de pontuação.
- Ironia no lugar do sermão. A crítica à elite do Rio no Segundo Reinado aparece sem discurso: os personagens se expõem sozinhos, pela vaidade e pelo interesse. O pessimismo vem com humor, como na última frase de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
- Narradores em que não dá para confiar. Em Dom Casmurro, tudo o que sabemos passa pela memória ciumenta de Bentinho, e o leitor precisa desconfiar do que lê.
- A escravidão vista de dentro de casa. Em Brás Cubas, Prudêncio, já liberto, compra um escravizado e o castiga como era castigado. No conto “Pai contra Mãe”, um caçador de escravizados fugidos captura uma mulher grávida para não ter de abandonar o próprio filho. E numa crônica de 1888, um senhor liberta o escravizado Pancrácio às vésperas da Lei Áurea só para posar de generoso.
- Diálogo com a literatura estrangeira. No prefácio de Brás Cubas, o próprio narrador cita a “forma livre” de Laurence Sterne e Xavier de Maistre. Machado também traduziu “O Corvo”, de Edgar Allan Poe, e Os Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo.
Dom Casmurro e a dúvida sobre Capitu
Dom Casmurro é narrado por Bento Santiago, o Bentinho, já velho e solitário, que resolve escrever para “atar as duas pontas da vida”. Ele conta o amor de infância por Capitu, a amizade com Escobar, o casamento e a certeza de ter sido traído: o filho, Ezequiel, ficava cada vez mais parecido com o amigo.
O detalhe é que só temos a versão dele. As provas, como a semelhança do menino e o olhar de Capitu no velório de Escobar, com os famosos “olhos de ressaca”, são impressões de um homem ciumento. Durante décadas, o livro foi lido como a história de um adultério. Em 1960, a pesquisadora norte-americana Helen Caldwell, no livro The Brazilian Othello of Machado de Assis, propôs ler Bentinho como um Otelo que acusa sem provas. Para boa parte da crítica atual, a ambiguidade é o próprio assunto do romance, e a pergunta “Capitu traiu?” diz mais sobre quem narra do que sobre ela.
Por onde começar a ler Machado
Se você nunca leu Machado ou guardou uma lembrança ruim da escola, uma ordem gradual ajuda:
- Contos curtos. “A Cartomante”, “Missa do Galo”, “Teoria do Medalhão” e “Pai contra Mãe” se leem de uma vez e já mostram a ironia e os finais que mudam o sentido da história.
- O Alienista. Novela bem-humorada sobre o médico Simão Bacamarte, que abre um hospício em Itaguaí e começa a internar quase todos os moradores.
- Dom Casmurro. Talvez o romance mais acessível da fase madura, com capítulos curtos e uma trama que prende.
- Memórias Póstumas de Brás Cubas. Mais experimental; rende mais quando você já se acostumou ao jeito do autor.
- Quincas Borba. Retoma o filósofo que aparece em Brás Cubas. É desse livro a frase “Ao vencedor, as batatas”, resumo irônico do Humanitismo, a filosofia inventada pelo personagem.
Prefira edições com notas, porque o vocabulário e as referências do século 19 podem travar, e não pule os capítulos que parecem digressão: muitas vezes a ironia está ali. Como a obra está em domínio público, os livros podem ser lidos de graça no portal Domínio Público, do Ministério da Educação. Para continuar pelos clássicos nacionais depois dele, vale conhecer também escritoras brasileiras que merecem leitura.
Machado e a Academia Brasileira de Letras
Machado esteve entre os fundadores da Academia Brasileira de Letras, criada em 1897 no Rio de Janeiro, e foi o primeiro presidente da instituição, cargo que ocupou até morrer. Na ABL, ficou com a cadeira 23 e escolheu como patrono José de Alencar, um dos principais nomes do romantismo brasileiro. Não por acaso, a Academia é conhecida como Casa de Machado de Assis. A biografia e a lista completa de obras estão na página do autor no site da Academia Brasileira de Letras.
Curiosidades sobre o autor
- O nome veio dos dois lados da família. “Machado” é da mãe e “de Assis”, do pai. O sobrenome Assis, comum no Brasil, costuma ser associado à devoção a São Francisco, o santo nascido na cidade de Assis, na Itália.
- Escreveu de tudo. Além dos romances e de cerca de 200 contos, publicou livros de poesia, como Crisálidas (1864), peças de teatro, crítica literária e crônicas.
- Um romance que ficou de fora da conta. Casa Velha saiu em capítulos numa revista nos anos 1880 e só foi reunido em livro décadas depois da morte do autor, por isso nem sempre aparece nas listas.
Se quiser um ponto de partida simples, leia um conto hoje e Dom Casmurro na sequência, prestando atenção em quem está contando a história. É nesse jogo entre o que o narrador diz e o que ele esconde que Machado continua atual, mais de um século depois.

