O prato brasileiro mais comum é o do almoço de todo dia: arroz, feijão, uma carne ou ovo, salada e, muitas vezes, farofa ou batata frita. É o famoso PF, o prato feito. Entre as receitas típicas, a feijoada costuma ser lembrada como prato nacional, mas cada região tem as suas, como moqueca, baião de dois, tacacá, feijão tropeiro e churrasco.
O que vai no prato feito, o almoço clássico do Brasil
O nome prato feito vem do fato de a refeição chegar à mesa já montada, com tudo junto e por um preço fechado. Dependendo da cidade, ela também aparece no cardápio como “comercial”, “executivo” ou “prato do dia”. A composição muda pouco de um lugar para outro:
- Arroz branco: soltinho, refogado com alho e óleo. É a base de volume do prato.
- Feijão: o carioca predomina em boa parte do país, o preto é mais comum no Rio de Janeiro e no Sul, e o feijão-de-corda (também chamado de macáçar ou caupi) aparece muito no Nordeste e no Norte.
- Proteína: bife acebolado, frango grelhado, carne de panela, linguiça, peixe frito ou ovo frito.
- Salada: alface, tomate e cebola, às vezes com pepino ou cenoura ralada.
- Acompanhamento: farofa, batata frita, macarrão, purê ou legumes refogados, como abobrinha e chuchu.

Essa combinação é tão comum que “arroz com feijão” virou expressão para dizer que algo é simples, básico e confiável. O tempero de casa também tem uma base conhecida: alho, cebola, sal, cheiro-verde (salsinha e cebolinha), louro no feijão e, em muitas regiões, coentro e pimenta.
Por que o arroz com feijão virou a base
O feijão é cultivado nas Américas há milhares de anos e já fazia parte da alimentação de povos indígenas. O arroz que se come hoje veio com os colonizadores portugueses e se espalhou pelo país ao longo dos séculos. Aos poucos, os dois passaram a dividir o mesmo prato, até formar a dupla que hoje aparece em quase todas as casas.
A dupla também faz sentido do ponto de vista nutricional. O arroz e o feijão se complementam em aminoácidos e, juntos, oferecem uma proteína de boa qualidade, com fibras, ferro e energia. O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, cita o arroz com feijão como exemplo de alimentação tradicional saudável e recomenda dar preferência a alimentos frescos e preparações caseiras em vez de ultraprocessados.
Pratos típicos de cada região
O Brasil é grande, e a comida muda muito de um estado para outro. Os ingredientes indígenas (mandioca, milho, peixes de rio), a cozinha portuguesa, as influências africanas e, mais tarde, as dos imigrantes italianos, alemães, japoneses e árabes explicam boa parte dessa variedade.
Norte
A cozinha amazônica usa muito a mandioca e os peixes de rio. O tacacá é um caldo quente de tucupi (o líquido amarelo extraído da mandioca brava) com goma de mandioca, jambu e camarão seco, vendido em cuias nas ruas de Belém e Manaus. O pato no tucupi é o prato tradicional do almoço do Círio de Nazaré, no Pará, e a maniçoba leva folha de mandioca moída e cozida por vários dias com carnes de porco, num preparo que lembra a feijoada. Peixes como tambaqui, pirarucu e tucunaré aparecem assados, fritos ou em caldeiradas.
Nordeste
Na Bahia, a moqueca baiana leva peixe ou camarão, leite de coco, azeite de dendê, pimentão, tomate e coentro. O acarajé é um bolinho de feijão-fradinho frito no dendê e recheado com vatapá, caruru e camarão seco; o ofício das baianas de acarajé é registrado pelo Iphan como patrimônio imaterial. No Ceará e nos estados vizinhos, o baião de dois mistura arroz e feijão-de-corda cozidos juntos, com queijo coalho e, às vezes, carne de sol. A carne de sol com macaxeira e a tapioca completam a lista de quem viaja pela região.
Se a viagem incluir o litoral, um roteiro pelas praias do Nordeste costuma render boas paradas em barracas e restaurantes de frutos do mar, onde peixe frito, caranguejo e moqueca são os pedidos mais comuns.
Centro-Oeste
Em Goiás, o arroz com pequi e a galinhada são clássicos. O pequi tem sabor e cheiro fortes, que dividem opiniões, e o caroço tem espinhos finos por dentro: a polpa deve ser roída com cuidado, nunca mordida. Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o Pantanal oferece peixes de rio como pacu e pintado. Em Mato Grosso do Sul, que faz fronteira com o Paraguai, a cozinha do país vizinho aparece na chipa e na sopa paraguaia, que, apesar do nome, é uma torta salgada de milho e queijo.
Sudeste
Minas Gerais é conhecida pelo feijão tropeiro (feijão com farinha de mandioca, torresmo, linguiça, ovo e couve), pelo tutu de feijão e pelo pão de queijo. Em São Paulo, o virado à paulista reúne arroz, tutu, bisteca de porco, couve refogada, ovo frito, banana empanada e torresmo, e muitos restaurantes o servem às segundas-feiras. No Espírito Santo, a moqueca capixaba é feita em panela de barro, com urucum e azeite, sem dendê nem leite de coco. No Rio de Janeiro, a feijoada é a grande estrela dos sábados.
Sul
No Rio Grande do Sul, o churrasco de espeto temperado com sal grosso e o arroz de carreteiro, feito originalmente com charque e hoje também com sobras de churrasco, fazem parte da rotina. O litoral do Paraná, em cidades como Morretes e Antonina, tem o barreado: carne cozida por muitas horas em panela de barro vedada com uma massa de farinha, servida com farinha de mandioca e banana. Em Santa Catarina, a herança das colônias alemãs e italianas divide a mesa com camarão e ostras na região de Florianópolis.
Feijoada: o prato que representa o país
A feijoada é feijão-preto cozido com carne-seca e carnes de porco, como costelinha, lombo, paio e linguiça; na versão completa, entram também orelha, pé e rabo. Vai à mesa com arroz branco, couve refogada, farofa, torresmo e laranja em gomos, que traz frescor e contrasta com a gordura das carnes. Em São Paulo, muitos restaurantes a servem às quartas e aos sábados; no Rio, o sábado é o dia mais tradicional.
A história mais repetida diz que a feijoada nasceu nas senzalas, com as partes do porco que os senhores descartavam. Historiadores da alimentação contestam essa versão: essas partes eram apreciadas na época, e o prato tem parentesco com cozidos e feijoadas portuguesas, adaptados aqui ao feijão-preto. De um jeito ou de outro, virou símbolo da mesa brasileira.
Como fazer o básico bem feito em casa
O que separa um prato comum de um prato caprichado é o cuidado com três coisas: o ponto do arroz, o caldo do feijão e o tempero.
Arroz soltinho

- Se quiser, lave o arroz rapidamente para tirar o excesso de amido e deixe escorrer bem.
- Refogue alho (e cebola, se gostar) em um fio de óleo, junte o arroz e mexa por um ou dois minutos, até os grãos ficarem opacos.
- Acrescente água fervente com sal. Para arroz branco agulhinha, a medida mais usada fica perto de duas xícaras de água para uma de arroz; ajuste conforme a marca e a panela.
- Cozinhe em fogo baixo, com a tampa entreaberta, até a água secar e aparecerem furinhos na superfície.
- Desligue, tampe e deixe descansar uns 5 minutos antes de soltar os grãos com um garfo.
Feijão com caldo grosso

Escolha os grãos para tirar pedrinhas, lave e deixe de molho por 8 a 12 horas. Trocar a água do molho antes de cozinhar ajuda a reduzir o desconforto intestinal que algumas pessoas sentem. Cozinhe na pressão com água limpa e uma folha de louro; o tempo varia com o tipo e a idade do grão, então confira o ponto (o grão deve se desfazer com facilidade entre os dedos).
Depois, refogue alho e cebola em outra panela, junte uma concha de feijão amassado para engrossar e volte tudo para a panela. Bacon, linguiça ou paio dão mais sabor, mas o feijão temperado só com alho, cebola, louro e sal já fica muito bom.
Bife acebolado e outras proteínas
Para o bife dourar em vez de soltar água, a frigideira precisa estar bem quente e com poucos bifes de cada vez. Tempere com sal e pimenta na hora de fritar, doure dos dois lados e reserve; na mesma frigideira, murche a cebola em rodelas aproveitando o fundo da carne. Filé de frango fino e ovo frito seguem a mesma lógica de fogo alto e pouco tempo.
Farofa e salada
A farofa mais simples leva manteiga, cebola picada e farinha de mandioca, mexida em fogo baixo até ficar dourada e crocante. Ovo, bacon, banana ou cenoura ralada mudam a versão. A salada fica melhor temperada na hora de servir, com sal, azeite e limão ou vinagre, para as folhas não murcharem.
Versões vegetarianas e mais econômicas
O prato brasileiro se adapta bem a outros jeitos de comer. Para uma versão vegetariana, troque a carne por ovo, grão-de-bico, lentilha, cogumelos refogados ou legumes assados; o arroz com feijão já garante boa parte da proteína da refeição. Quem quer economizar pode usar cortes mais baratos, como acém ou músculo na carne de panela, e aproveitar talos e folhas: talo de couve e de brócolis vai bem na farofa e no refogado, a sobra de arroz vira bolinho e a de feijão vira tutu.
Onde provar a comida brasileira em viagem
Em qualquer cidade, os lugares mais honestos para provar a comida do dia a dia são os restaurantes de comida caseira que servem prato feito e os self-services por quilo, muito comuns no país. Mercados municipais costumam reunir bancas de comida regional, e perguntar pelo prato do dia é um bom jeito de comer o que está fresco.
As festas populares também ajudam a conhecer a culinária local. Nas festas juninas, em junho e julho, aparecem pamonha, curau, milho cozido, pé de moleque, quentão e canjica (que no Nordeste se chama mungunzá), tudo ao som das músicas típicas de festa junina. No Nordeste, o São João de cidades como Caruaru e Campina Grande atrai visitantes de todo o país.
Perguntas frequentes
Qual é o prato mais típico do Brasil?
A feijoada é a resposta mais comum, mas no dia a dia o prato mais presente é o arroz com feijão acompanhado de carne e salada. Os pratos típicos variam bastante de uma região para outra.
Qual a diferença entre prato feito, comercial e executivo?
Na prática, são nomes diferentes para a mesma ideia: uma refeição completa, já montada, com preço fechado. O executivo costuma ter apresentação mais caprichada e, em alguns lugares, inclui bebida ou sobremesa.
Que pratos servir para quem quer conhecer a comida brasileira?
Uma feijoada completa, uma moqueca ou um almoço simples com arroz, feijão, farofa, bife acebolado e salada. Para completar, pão de queijo, tapioca ou uma sobremesa como pudim de leite ou brigadeiro.
Para montar um bom prato brasileiro em casa, comece pelo básico: arroz soltinho, feijão bem temperado, uma proteína dourada e salada fresca. Nas viagens, vale trocar o conhecido pelos pratos da região, porque é neles que a cozinha do país mostra toda a sua variedade.
Foto de capa: Melsj/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

