Juros altos, inadimplência, recuperações judiciais e avanço das vendas online pressionaram o emprego formal no setor.
O comércio brasileiro fechou 7,8 mil postos de trabalho com carteira assinada entre janeiro e julho de 2026, primeiro saldo negativo para o período desde o início da atual metodologia do Caged, em 2021. O resultado foi puxado pelo varejo, que perdeu 51,7 mil vagas nos sete primeiros meses do ano, segundo dados do Ministério do Trabalho analisados pela pesquisadora Janaína Feijó, da FGV Ibre.
A queda ocorre em meio a juros altos, inadimplência e crédito mais restrito, fatores que reduzem as compras de bens de maior valor. A pesquisadora também atribui o desempenho à recuperação judicial de redes varejistas e a mudanças no setor provocadas pela expansão do comércio eletrônico.
Varejo concentra perda de empregos
O saldo do comércio contrasta com o mesmo período de 2025, quando o setor havia criado 125,8 mil vagas. De acordo com o estudo citado pelo Estadão, foram destruídas 133,8 mil vagas na comparação entre os dois períodos.
Comparação entre janeiro e julho de 2025 e de 2026.
- Comérciojaneiro a julho125,8 mil vagas-7,8 mil vagas
- Varejojaneiro a julho44,1 mil vagas-51,7 mil vagas
O varejo foi o principal responsável pela virada. Enquanto atacado e comércio de veículos ainda mantiveram saldo positivo de empregos, ambos registraram desaceleração: recuo de 48% no atacado e de 44% no setor de veículos em relação aos primeiros sete meses de 2025.
| Segmento | Janeiro a julho de 2025 | Janeiro a julho de 2026 |
|---|---|---|
| Comércio | 125,8 mil vagas | -7,8 mil vagas |
| Varejo | 44,1 mil vagas | -51,7 mil vagas |
Crédito caro afeta vendas e empresas
Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o custo do crédito e o orçamento das famílias comprometido por dívidas limitaram as compras de maior valor. Em julho, as vendas do varejo caíram 0,8% ante junho, já descontados os efeitos sazonais, informou o IBGE.

No mesmo mês, as vendas de móveis e eletrodomésticos recuaram 4,9%, a maior retração desse grupo desde dezembro de 2023. Esses produtos costumam depender mais de compras parceladas e, por isso, são mais sensíveis a juros elevados.
A situação financeira das varejistas também pesa. A consultoria RGF Bizdoc contabilizou 1.649 CNPJs do comércio em recuperação judicial no primeiro semestre. Segundo a fonte, empresas nessa condição podem fechar lojas e reduzir quadros de funcionários; as Casas Bahia, em recuperação judicial desde agosto, fecharam 298 lojas físicas e demitiram 3 mil trabalhadores dentro de seu plano de reestruturação.
Temporários devem crescer, mas efetivação tende a cair
A proximidade da Black Friday, no fim de novembro, e do Natal, em dezembro, deve elevar a contratação de trabalhadores temporários. Para Janaína Feijó, porém, esse movimento não deve ser suficiente para reverter o resultado negativo do emprego formal no comércio em 2026.
A expectativa da pesquisadora é de que as contratações temporárias ocorram em volume menor do que em anos anteriores e com menor chance de efetivação. Ela aponta ainda que o e-commerce transfere parte das atividades das lojas físicas para marketplaces, centros de distribuição e operações mais automatizadas, reduzindo a necessidade de vendedores, caixas e outros trabalhadores tradicionais do varejo.
Com informações de Estadão.
Foto de capa: Beth Castelo from Rio de Janeiro, Brasil/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

