A caverna mais profunda do mundo conhecida hoje é a Veryovkina, no maciço de Arabika, no Cáucaso, com 2.212 metros de desnível entre a entrada e o ponto mais baixo já explorado. Ela fica na Abecásia, região separatista da Geórgia, perto do mar Negro. Não é aberta a turistas: só expedições de espeleólogos experientes chegam ao fundo, numa descida que leva dias.
Onde fica a Veryovkina
A entrada fica no alto do maciço de Arabika, uma grande área de calcário na cordilheira do Cáucaso, perto da cidade de Gagra e da costa do mar Negro. O território é a Abecásia, que se declarou independente da Geórgia nos anos 1990 e é reconhecida por poucos países. Para a maior parte da comunidade internacional, inclusive o Brasil, a região continua fazendo parte da Geórgia.
O mesmo maciço abriga outras cavernas gigantes, como a Krubera (também chamada de Voronya) e a Sarma. Por isso Arabika é um dos lugares mais estudados pela espeleologia, a ciência que estuda as cavernas.
Por que ela é considerada a mais profunda
Em espeleologia, profundidade é o desnível: a diferença de altura entre a entrada mais alta e o ponto mais baixo alcançado. A Veryovkina chegou aos 2.212 metros em expedições do clube russo Perovo Speleo, no fim da década de 2010, e tomou o lugar da Krubera, que detinha o recorde. Para ter uma ideia da escala, é como descer cerca de sete vezes a altura da Torre Eiffel.
Esse número vale “até onde se explorou”. Os recordes de profundidade mudam quando mergulhadores atravessam trechos inundados, quando se descobrem galerias novas ou quando uma entrada mais alta é ligada ao mesmo sistema. O Mega Curioso reuniu mais detalhes sobre o que a caverna guarda.
Como uma caverna tão funda se forma
Cavernas como a Veryovkina são resultado do carste, o processo em que a água dissolve rochas solúveis, principalmente o calcário. A água da chuva e do degelo absorve gás carbônico do ar e do solo e fica levemente ácida. Ao se infiltrar pelas fraturas da rocha, ela vai alargando as fendas ao longo de centenas de milhares ou milhões de anos.
No maciço de Arabika, algumas condições favorecem abismos tão profundos: a camada de calcário é muito espessa, as entradas ficam em grande altitude e a água que entra no alto da montanha escoa até perto do nível do mar. Com tanto desnível, ela desce quase na vertical e abre poços em sequência, em vez de formar galerias horizontais longas. Testes com corante feitos em cavernas do maciço mostraram que essa água reaparece em nascentes perto do litoral do mar Negro.
Como é uma expedição até o fundo
A Veryovkina é, basicamente, uma sequência de poços verticais ligados por passagens estreitas, cascatas e trechos alagados. A descida é feita com cordas, usando técnicas de progressão vertical, e as equipes carregam tudo o que vão usar: cordas, iluminação, comida, roupas secas e material de acampamento.
- Tempo: chegar ao fundo leva vários dias, e as expedições costumam durar semanas, com acampamentos montados em diferentes profundidades.
- Ambiente: escuridão total, umidade muito alta, frio constante e água gelada. Passar muito tempo molhado é um dos maiores riscos, por causa da hipotermia.
- Enchentes: chuva forte ou degelo na superfície pode fazer a água subir depressa nas partes baixas. Há relatos de equipes que precisaram abandonar acampamentos inferiores às pressas por causa disso.
- Resgate: a essa profundidade, retirar uma pessoa ferida pode levar dias e envolver muitas equipes. Por isso a prevenção de acidentes é levada tão a sério.
O vídeo abaixo conta um episódio dramático de uma expedição à Veryovkina.
A origem do nome
A caverna homenageia Alexander Verëvkin, espeleólogo russo morto em 1983 durante uma exploração subterrânea. A transliteração do russo explica por que o nome aparece com grafias diferentes em reportagens: Veryovkina, Verevkina ou Verëvkina.
As cavernas mais profundas depois dela
As três cavernas mais profundas conhecidas ficam no mesmo maciço de Arabika:
| Caverna | Local | Profundidade aproximada |
|---|---|---|
| Veryovkina | Maciço de Arabika, Abecásia | 2.212 m |
| Krubera (Voronya) | Maciço de Arabika, Abecásia | cerca de 2.200 m |
| Sarma | Maciço de Arabika, Abecásia | cerca de 1.800 m |
A Krubera foi a primeira caverna explorada além dos 2 mil metros, em 2004, e ficou no topo do ranking até ser superada pela Veryovkina. Fora do Cáucaso, as cavernas mais profundas conhecidas ficam em regiões calcárias da Europa, como os Alpes e os Picos de Europa, na Espanha, e algumas passam de 1.500 metros. O jornal O Globo publicou uma reportagem sobre o recorde da Veryovkina e as expedições ao fundo.
Profundidade não é o mesmo que extensão
Profundidade mede o quanto a caverna desce; extensão soma o comprimento de todas as galerias mapeadas. São rankings diferentes. A Veryovkina é a mais funda, mas está longe de ser a mais longa. O maior sistema de cavernas em extensão é o de Mammoth Cave, no Kentucky (Estados Unidos), com mais de 600 km de passagens mapeadas. Já a maior galeria em volume é a de Hang Son Doong, no Vietnã, onde há até vegetação crescendo sob aberturas no teto.
O que existe lá embaixo
Nas grandes profundidades não há luz nenhuma, e a temperatura varia pouco ao longo do ano. Mesmo assim, existe vida: pequenos invertebrados adaptados ao escuro, como colêmbolos e outros artrópodes, vivem nas cavernas do maciço, e algumas espécies foram descritas pela ciência a partir de coletas feitas nessas expedições. Os espeleólogos também mapeiam os rios subterrâneos e as formações rochosas, o que ajuda a entender a história geológica da região.
E no Brasil?
As cavernas brasileiras são bem mais rasas. A mais profunda conhecida é o Abismo Guy Collet, em Barcelos, no Amazonas, com cerca de 670 metros de desnível. Em compensação, o país tem grutas extensas e várias abertas à visitação, como as do PETAR, no Vale do Ribeira (SP), a Gruta do Lago Azul, em Bonito (MS), a Gruta de Maquiné (MG) e as grutas da Chapada Diamantina (BA). Em geral, a visita é feita com guia credenciado e em trilhas preparadas.
Dúvidas frequentes
Dá para visitar a Veryovkina?
Não como turista. A caverna não tem estrutura de visitação, e chegar ao fundo exige técnica vertical avançada, preparo físico e participação em expedições organizadas. A Abecásia também tem situação política delicada: a Geórgia considera ilegal entrar na região pela Rússia.
A caverna mais funda é o ponto mais fundo da Terra?
Não. O ponto mais fundo da superfície terrestre é a Fossa das Marianas, no oceano Pacífico, a quase 11 mil metros abaixo do nível do mar. E o furo mais profundo feito pelo homem é o poço de Kola, na Rússia, com mais de 12 km, perfurado para pesquisa. A Veryovkina é o recorde entre cavidades naturais percorridas por pessoas.
O recorde pode mudar?
Pode. Novas entradas, ligações entre cavernas ou o avanço de mergulhadores em trechos inundados podem aumentar o desnível conhecido, e foi assim que a Veryovkina tomou o lugar da Krubera.
A Veryovkina mostra quanto ainda falta mapear no subsolo: até 2004, nenhuma caverna conhecida passava de 2 mil metros de profundidade. Se você gosta de curiosidades da natureza, veja também as árvores mais impressionantes do planeta e uma seleção de fotos de lugares bonitos pelo mundo.







