A Ilha da Queimada Grande fica a pouco mais de 30 km da costa sul de São Paulo e é o único lugar do mundo onde vive a jararaca-ilhoa, uma cobra venenosa e criticamente ameaçada de extinção. Por isso ficou conhecida como “ilha das cobras”. O desembarque é proibido: só entram pesquisadores autorizados pelo ICMBio e equipes da Marinha que cuidam do farol.
Onde fica e como é a ilha
A ilha pertence ao município de Itanhaém e está em mar aberto. Tem cerca de 43 hectares (menos de meio quilômetro quadrado), com costões de pedra, pouca área plana e mata atlântica baixa cobrindo boa parte do terreno. Não há praia nem cais: para desembarcar, é preciso encostar o barco nas rochas.
Ela faz parte de uma área de proteção federal, a Área de Relevante Interesse Ecológico das Ilhas da Queimada Grande e Queimada Pequena, administrada pelo ICMBio. Na ilha existe um farol, hoje automatizado, que recebe manutenção periódica da Marinha.
O nome costuma ser explicado por relatos de queimadas feitas no passado para limpar a vegetação, seja para plantar, seja para tentar se livrar das cobras. Não há registro preciso de quando isso aconteceu.
Por que há tantas cobras lá
A explicação é geológica, não lendária. Há milhares de anos, no fim da última glaciação, o nível do mar subiu e separou do continente o morro que hoje forma a ilha. As jararacas que viviam ali ficaram isoladas e, com o tempo, se adaptaram a um ambiente muito diferente do continente.
Na ilha não há mamíferos terrestres que sirvam de presa, como os roedores que a jararaca comum caça no continente. O alimento mais farto são as aves que param ali durante as migrações. As cobras que conseguiam capturar pássaros sobreviviam e se reproduziam, e essa pressão deu origem a uma espécie própria, a Bothrops insularis. Sem predadores naturais relevantes, a população se manteve alta num espaço pequeno, o que explica a fama da ilha.
A jararaca-ilhoa

Aparência e hábitos
É uma cobra de porte médio, com coloração mais clara e amarelada que a da jararaca continental. Passa bastante tempo em galhos e arbustos, de onde espera as aves que pousam. Os filhotes se alimentam principalmente de pequenos animais de sangue frio, como lacraias e pequenas rãs, e passam a caçar aves quando crescem.
O veneno
O veneno é considerado mais potente e de ação mais rápida que o da jararaca do continente, sobretudo em aves. Faz sentido para uma cobra que precisa imobilizar a presa antes que ela voe para longe. Em pessoas, uma picada de jararaca pode causar dor intensa, inchaço, sangramentos e necrose no local, e exige atendimento médico imediato com soro específico. É esse risco, somado ao isolamento da ilha, que torna a visita perigosa.
Por que ela está ameaçada
A espécie aparece como criticamente ameaçada na lista vermelha da IUCN e nas listas brasileiras de fauna ameaçada. Os motivos são a área minúscula onde ela vive, a degradação da vegetação, a baixa diversidade genética de uma população isolada há tanto tempo e a captura ilegal de exemplares para o tráfico de animais, que já foi registrada. Qualquer desastre na ilha, como um incêndio, poderia afetar a espécie inteira.
Dá para visitar a Ilha da Queimada Grande?
Não. O desembarque de turistas é proibido, e a entrada depende de autorização do ICMBio, concedida a pesquisadores com projeto aprovado. As expedições científicas vão acompanhadas, com roupas e botas de proteção, e costumam levar equipe preparada para emergências.
O que existe são passeios de barco e saídas de mergulho no mar ao redor, oferecidos por operadoras do litoral sul paulista, sempre sem pisar na ilha. Se tiver interesse, confira com a operadora as regras em vigor e as condições do mar, que em mar aberto mudam rápido.
Se a sua vontade é conhecer uma ilha brasileira de verdade, com praia, cidade e hospedagem, a Ilha de Itaparica, na Bahia, é um exemplo de destino aberto a visitantes, bem diferente deste.
Mitos e verdades sobre a ilha das cobras
“Piratas soltaram as cobras para proteger um tesouro”
Mito. É uma lenda antiga e bastante repetida, mas a jararaca-ilhoa é resultado de um longo processo de evolução, muito anterior à chegada de navegadores europeus ao Brasil.
“Há uma cobra por metro quadrado”
Exagero. Essa frase circula em reportagens e vídeos, mas os levantamentos científicos estimam a população em alguns milhares de indivíduos, número bem abaixo do que a frase sugere. Ainda assim, é uma densidade alta para uma serpente venenosa, e encontrar cobras durante uma caminhada na ilha é comum.
“A família do faroleiro morreu picada”
Não há confirmação. A história de que o último faroleiro e sua família teriam morrido depois de cobras entrarem na casa é contada há décadas, mas não há documentação que a comprove. O que se sabe é que o farol passou a funcionar de forma automática e deixou de precisar de alguém morando ali.
“É a cobra mais venenosa do mundo”
Não é bem assim. O veneno é potente, mas rankings de “cobra mais venenosa” costumam colocar espécies australianas e marinhas à frente. A jararaca-ilhoa chama atenção pela combinação de veneno forte, população concentrada e endemismo, ou seja, por viver só ali.
Por que os cientistas se interessam pela ilha
A ilha funciona como um laboratório natural de evolução: permite comparar uma espécie isolada com sua parente do continente e entender como dieta e ambiente moldam o corpo, o comportamento e o veneno de um animal. Instituições como o Instituto Butantan, em São Paulo, estudam a espécie e mantêm exemplares em cativeiro para pesquisa e conservação.
O veneno das jararacas também tem um histórico importante na medicina. Pesquisas brasileiras com o veneno da jararaca do continente abriram caminho para o captopril, remédio usado no controle da pressão alta. O da jararaca-ilhoa segue sendo estudado em busca de moléculas com possível uso farmacológico, mas até hoje não há medicamento aprovado derivado dele.
A Queimada Grande não é a única ilha brasileira cheia de particularidades. Para comparar com outro extremo do país, vale ver este mapa da Ilha do Marajó, no Pará, com sua geografia de rios e campos alagados.
Perguntas frequentes
Onde fica exatamente a ilha?
No litoral sul de São Paulo, em mar aberto, a pouco mais de 30 km da costa, na área do município de Itanhaém. As cidades costeiras mais próximas são Itanhaém e Peruíbe.
Existem jararacas-ilhoas fora da ilha?
Na natureza, não. Fora da Queimada Grande, a espécie só existe em cativeiro, em instituições de pesquisa autorizadas, além dos exemplares retirados ilegalmente pelo tráfico.
O que fazer em caso de picada de cobra no continente?
Mantenha a pessoa calma e deitada, lave o local com água e sabão e procure o serviço de saúde mais próximo o quanto antes. Não faça torniquete, não corte nem chupe o local da picada e não use receitas caseiras. O tratamento é feito com soro, só em unidade de saúde.
A Ilha da Queimada Grande é mais interessante como assunto de ciência do que como destino: é lá que uma espécie inteira depende de poucos hectares de mata para existir. Admirar de longe, por fotos, documentários e pelos estudos publicados, é a forma segura e correta de conhecer a ilha das cobras.

